Podcast Farofa Moderna - Jazz & Música Improvisada
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John Coltrane: do hard bop ao free jazz místico !!!
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Se existe algum músico que foi literalmente canonizado e beatificado como uma eterna entidade - no sentido espiritual, digo - esse foi John Coltrane, um saxofonista tenor de som forte, marcante, bluesy, comovente e virtuoso. Só pra vocês terem uma idéia do volume de engodo em torno da espiritualidade de Coltrane, um reverendo americano chegou a fundar uma igreja chamada Saint John Coltrane African Orthodox Church, onde os louvores são tirados das composições do saxofonista - e de fato, ele até tinha essa ânsia e esse desejo de que sua música e sua arte servissem estritamente para a "libertação" das pessoas. Musicalmente falando, apenas 10 anos, de 1957 à 1967, foram suficientes para que Coltrane percorresse um caminho cheio de experiências e lançasse um grande conjunto de obras-primas que abalaria totalmente as estruturas do Jazz dali para frente. A sua carreira solo, mesmo, teve início no estilo do hard bop com o disco Blue Train (Blue Note, 1957) e teve seu final no estilo do free jazz com discos póstumos como Expression (Impulse! 1967). Ainda no início da carreira, Trane - como era apelidado pelos amigos - empunhou uma árdua luta para deixar os "picos" e as "vibes" alucinógenas, proporcionadas por doses cavalares de heroína e álcool, para ir ao encontro de Deus por meio dos sons - embora, haja boatos de que, mesmo depois de curado do vício da heroína, ele também tenha provado LSD pra "elevar sua sabedoria". Mas, de fato, Coltrane foi o músico mais crente de toda a história do jazz: a sua crença em Deus não era apenas aquela moldada pela concepção cristã ou protestante (já que seu pai e seu avô foram pastores de uma igreja gospel americana), mas era, sobretudo, uma crença própria que abrangia temas diversos, conceitos da ciência, filosofias e ensinamento de outras religiões como o hinduísmo, islamismo, o budismo, a cabala, rituais africanos, a astrologia e afins.
Esse "ir ao encontro de Deus através dos sons" foi uma busca que começou ainda nos anos 50. Talvez por causa do seu vício e dos tantos prejuízos que isso lhe resultava - incluindo-se, aí, demissões das bandas por onde passava e, consequentemente, a falta de grana -, Trane passou a se apegar, cada vez mais, na religião para poder encontrar o caminho da cura. O período mais árduo da sua vida como junkie foi, inclusive, de 1954 à 1958, período no qual ficou famoso por tocar nas bandas do trompetista Miles Davis e do pianista Thelonious Monk. Foram quatro anos de tentativas frustradas para se livrar da heroína e do álcool, além de chegar ao ponto de ter sido demitido do quinteto de Miles (que também passara um período árduo como viciado, alguns anos antes) e ter até que parar por causa de tão incapacitado que ficou, em Abril de 1957. Mas, encorajado e influenciado por amigos - como os póprios Miles e Monk, além de Red Garland e Tommy Flanagan, por exemplo - Coltrane aos poucos foi deixando o vício da heroína e se estabelecendo como o maior saxtenorista da sua época, ao lado do também saxtenorista Sonny Rollins. Dessa fase inicial como líder, vamos escutar uma faixa do disco Blue Train, de 1957
Mas as "viagens sonoras" de Coltrane começariam mesmo com o início do jazz modal, ao lado de Miles. Quem observar os solos de Trane no disco Blue Train (1957), e depois compará-los com os solos do Giant Steps (1959), gravado na mesma época que o Kind of Blue de Miles, poderá perceber uma considerável evolução que transformou seu fraseado bebop em um estilo próprio de fraseado: através do estudo intensivo em busca de uma identidade cada vez mais própria, suas improvisações ficaram cada vez mais viscerais, seus vôos mais virtuosos e seus discos passaram a ser mais originais. Como o jazz modal era um conceito que fazia o uso das escalas modais gregas ao invés de usar a convencional seqüência de cifras para harmonizar a música, Trane passou a improvisar uma seqüência absurda de notas ligadas em combinações de escalas, as quais mudavam a todo o momento: essa característica mudou o seu swing e deixou seus solos mais compridos, intensos e dinâmicos. Essa técnica de tocar uma seqüência absurda de notas ligadas já tinha sido rotulada pelo crítico Ira Gliter, um pouco antes, como "sheet of sounds (camadas de sons); e esse seu conceito harmônico de improvisar seqüências de modos de escalas, ou seja, improvisar escalas que mudavam a todo o momento, chamaram de "Coltrane Changes" (mudanças de Coltrane). Como exemplo dessa faceta de Coltrane vamos escutar a faixa título do disco Giant Steps, de 1959.
Na década de 50, tirando o fato de Coltrane ter se casado com uma moça convertida à religião islâmica chamada Naima (a qual, ele dedicou a faixa Naima no disco Giant Steps), há poucos vestígios do uso temático das suas descobertas religiosas em suas composições. Já na década de 60, com o surgimento do free jazz de Ornette Coleman, Coltrane não só começou a levar sua música ao caminho da improvisação livre como também usou e abusou de temáticas que levaria sua obra ao cúmulo do misticismo: trata-se de uma fase mais "free" e "spiritual", que influenciaria muitos outros músicos daquela época e da década de 70. Aliás, o disco mais "sóbrio" e convencional que Coltrane gravou de 1960 até 1967 foi o Duke Ellington and John Coltrane, de 1962, em colaboração com o lendário pianista e bandleader Duke Ellington, um dos maiores mestres do início do jazz. Mas Trane já havia gravado, por exemplo, um disco chamado Avant-Garde com o trompetista Don Cherry em 1960 - onde ele inaugurava sua preferência pelo estilo de Free Jazz de Ornette Coleman e começava a deixar de lado as reminiscências do bebop e hard bop - e também já tinha gravado Olé Coltrane e África Brass (1961), discos com peças e arranjos interessantes para um inusual conjunto orquestral que incluía músicos fantásticos como os trompetistas Freedie Hubbard e Booker Little, contrabaixista Art Davis, o saxofonista Eric Dolphy e os músicos que constituiria o seu legendário e clássico quarteto: o pianista McCoy Tyner, o baterista Elvin Jones e o contrabaixista Jimmy Garrison, com os quais Trane gravaria o seu mais famoso álbum, chamado A Love Supreme (uma devoção ao Deus, Todo Poderoso). Esses discos, gravados de 1960 à 1964, foram "obras de transição" para o período mais selvagem, free, cósmico e místico que Coltrane passaria a explorar a partir de 1965 através de discos temáticos como Ascencion, Om, Cosmic Music, Kulu Se Mama, Meditations, Interstellar Space e Expression. Essa fase de 1965 até sua morte em 1967, a qual ele inicia apresentando-se com seu amigo saxtenorista Pharoah Sanders e com sua segunda esposa Alice Coltrane, foi influenciada por músicos vanguardistas como Ornette Coleman, Sun Ra, John Gilmore e, principalmente, pelo som selvagem e ríspido do saxtenorista Albert Ayler.
Boa Audição!!!
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Monday, Feb 01, 2010O piano: de Thelonious Monk à Brad Mehldau !
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Ola galera! Seja bem vindos à mais um programa da nossa série de instrumentos: programas anteriores apresentei-lhes o trompete e o saxofone, e aqui apresentarei o piano, este instrumento que, hoje, é uma das principais fontes de inovação dentro do jazz. Quer dizer, os pianistas estão, de fato, se reafirmando como os grandes inovadores do jazz desde meados da década de 90 e início da década de 200: pianistas como Brad Mehldau, Jason Moran, Vijay Iyer e Hiromi Uehara trouxeram novas dinâmicas, novos modismos e paradigmas ao naipe do piano e, consequentemente, ao jazz contemporâneo: isso devido à essa atual onda eclética que permite ao jazzistas incorporar desde aspectos da música pop, rock até a música erudita de vanguarda . É preciso lembrar, no entanto, que essa nova geração de pianistas é nada mais do que uma extensão pós-moderna dos mestres pianistas como Thelonious Monk, Bill Evans, Bud Powell, Sun Ra, Keith Jarret, Oscar Peterson e tantos outros pianistas que foram grandes inovadores da arte do improviso nas décadas de 40, 50 e 60.
Começamos, portanto, com o grande Oscar Peterson, pianista canadense falecido em 2007. Oscar Peterson foi um dos pianistas mais longevos e famosos da história do jazz, ultrapassando praticamente seis décadas de atuação. Inspirado na arte do exibicionismo, na alegria contagiante e no improviso ágil e suingante, Oscar Peterson tinha como principal influência o pianista Art Tatum, que fez enorme sucesso com seu virtuosismo inalcançável nas décadas de 30 e 40, época do jazz dançante ou Swing Jazz. O início da sua carreira solo se deu no final dos anos 40 e, desde então, passou a tocar com os maiores músicos dos EUA e da Europa: o trompetista e showman Louis Armstrong, a cantora Ella Fitzgerald, o pianista e bandleader Count Basie, o violinista francês Stephane Grappelli, dentre muitos outros. No programa coloco pra tocar a faixa bebop Ornithology (uma composição de Charlie Parker), faixa que está no disco Paris Concert (1978) com Oscar Peterson e seu trio com o guitarrista Joe Pass e o contrabaixista Niels-Henning Orsted Pedersen (conhecido apenas pela abreviação NHOP) - e aí vale lembrar que essa formação de trio com piano, contrabaixo e guitarra foi o principal combo com o qual Oscar Perterson trabalhou.
Depois vocês ouvirão o grande e excêntrico Thelonious Monk, pianista oriundo da época do Bebop, mas que tinha concepções de harmonia, ritmo e improviso totalmente próprias. As composições de Thelonious Monk são claramente dissonantes e cheias de blues, e sua improvisação é fragmentada por pausas e contratempos: essas características fazem da música de Monk uma das mais exóticas já presenciadas na história do jazz - Miles Davis, por exemplo, dizia que era horrível tocar com Monk porque ele saia direto do tom e do ritmo da música, ele quebrava o ritmo e costumava desconcertar os músicos que o acompanhavam. Vocês poderão apreciar essas peculiaridades na faixa Five Spot Blues que está no disco Monk's Dream, disco gravado pela Columbia Records em 1963. A banda de Monk nesta faixa é o seu quarteto clássico com Charlie Rouse no sax tenor, John Ore no contrabaixo e Frankie Dunlop na bateria. Curiosidade: Esquecido na década de 40 e início da década de 50, Monk só passou a ser reconhecido pela sua forma inovadora de tocar a partir do final da década de 50 ao lançar importantes álbuns para os selos Prestige e Columbia. Esse sucesso tardio possibilitou que ele fosse capa da famosíssima revista TIMES em 1963.
Finalizando a apresentação de mestres influenciadores, o programa traz a arte de improviso do grande pianista Keith Jarret, que começou a carreira tocando com o saxofonista hippie Charles Lloyd e com Miles Davis em sua fase jazz-rock no início dos anos 70. Virtuoso, inquieto e inovador, Keith Jarret acabou deixando a onda do Fusion (ou Jazz-Rock) para começar um projeto solo na recém fundada gravadora ECM, selo alemão que estava apostando em músicos mais vanguardistas e experimentais. Foi gravando pela ECM que Keith Jarrett abandonou, momentaneamente, as aspectos swingantes do bebop e hard bop para se aventurar em improvisos totalmente em piano solo, explorando as possibilidades rítmicas, harmônicas e melódicas do instrumento, inspirando-se, também, nos aspectos da música pianística ligada ao universo erudito. Esse início de carreira na ECM foi um sucesso gigantesco: a partir de concertos esporádicos onde ele punha à prova todo o seu talento e dos discos como Facing You e Korn Concert, Jarrett adquiriu uma legião de fans no mundo todo. Mais adiante Jarrett passou a atuar com um trio de piano, baixo e bateria, com o qual voltou a explorar o swing dos temas mais tradicionais inspirado no trio clássico de Bill Evans: e esse trio foi outro sucesso estrondoso no universo do jazz. Atualmente com 64 anos, Keith Jarrett é um dos únicos pianistas vivos que já tem seu nome cravado no Hall of Fame do Jazz.
Brad Mehdau iniciou sua carreira no início da década de 90, a princípio antenado com a onda mainstream dos Young Lions (o baritonista James Carter, o saxtenorista Joshua Redman o contrabaixista Christian McBride e etc). Também inspirado no pianista Bill Evans - que popularizou a formação de piano, baixo e bateria na década de 60 -, Mehldau formou um trio com o contrabaixista Larry Grenadier e o baterista Jorge Rossy, alcançando, de imediato, grande atenção na mídia e diante do público. Entre o final dos anos 90 e início dos anos 2000, Brad Mehldau renovaria sua concepção de jazz incorporando vários temas do pop e rock moderno e contemporâneo e dando um tratamento harmônico, rítmico e melódico muito peculiar e contemporâneo. Vocês poderão ouvir, inclusive, o tema Blackbird dos Beatles na versão de Brad Mehldau: esta faixa está no disco The Art of Trio (onde ele mostra a arte do piano-trio) de 1997. Atualmente Brad Mehldau é um dos jazzistas mais reconhecidos mundialmente.
O programa também traz uma linda música do trio sueco Esbjorn Svensson Trio. Formado no início da década de 90 pelos músicos Esbjörn Svensson (piano), Dan Berglund (double bass) and Magnus Öström (drums), o trio ficou logo conhecido na Suécia, Dinamarca e alguns lugares da Europa pela música contagiante que impregnava uma boa dose de rock e pop contemporâneo ao mesmo tempo em que fazia uso de aspectos vanguardistas. Conhecidos apenas pela abreviação E.S.T, o Esbjorn Svensson Trio passou a ficar conhecido em toda a Europa a partir de 1995, quando o pianista Esbjorn Svensson foi premiado Músico de Jazz do ano na Suécia. A partir daí os prêmios europeus passaram a ser constantes: em 1997 o disco Winter in Venice foi premiado com um Grammy sueco, o disco Strange Place For Snow de 2002 foi agraciado com prêmios na Alemanha e com um Grammy francês e em dezembro de 2004 o E.S.T. foram agraciados com o prêmio Hans Koller como Artista do Ano Europeu. Em 2008, justamente na fase áurea do trio, o pianista Esbjorn Svensson falece em um acidente de mergulho no Mar Báltico, chocando toda a comunidade jazzística americana e européia. Vocês poderão ouvir a faixa A Picture Of Doris Travelling With Boris do disco Viaticum de 2005.
O trio The Bad Plus é composto pelo baixista Reid Anderson, o pianista Ethan Iverson e o baterista David King, todos da cidade de Mineápolis no estado americano de Minnesota. O trio vem se afirmando como um verdadeiro fenômeno nos EUA e em aluns países na última década, atingindo grande popularidade: e um dos fatores que mais diferenciam esse trio dos outros convencionais é a preferência dos músicos em fazer versões jazzy para temas de bandas como Nirvana, Blondie, Pixies, Heart e Aphex Twin. No programa, vocês poderão escutar a faixa Dirty Bonde, do disco Give (2004), que é uma composição do contrabaixista Reid Anderson: notem nessa composição como que a banda soa com muita intensidade, como se fosse uma banda de rock pesado. Aliás, assim como o trio Esbjorn Svensson, a The Bad Plus é uma banda que trabalha entra a junção de jazz, pop, rock e aspectos experimentais e vanguardistas. Para ouvir duas faixas do excelente disco Give, clique aqui nesse post do blog, onde fá falei um pouco do trio.
Nascido no Texas, o jovem pianista Robert Glasper, 30 anos, tem sido a principal aposta da legendária gravadora Blue Note em termos de piano jazzístico. Apesar de manter uma frequência de lançamento de dois em dois anos, Glasper vem se consagrando como um pianista de muita capacidade improvisativa e muita modernidade em suas composições: o lema do pianista, inclusive, é "fazer um jazz com a cara do presente". Suas composições são muito influenciadas pelo gospel, rhythm'n'blues e pelo hip hop (Inclusive ele já tocou com uma pá de caras e grupos do hip hop como Common, Talib Kweli, Q-Tip, Slum Village, Jay-Z, J Dilla, entre outros). Neste programa vocês poderão ouvir a faixa Jelly's da Beener, faixa presente no excelente disco Canvas (2005).
Boa Audição!!!
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Monday, Feb 01, 2010Orgão Hammond B3: do gospel ao acid Jazz
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Assista um vídeo de orgão Hammond B3 no Blog Farofa Moderna MTV
Gospel! Soul-Jazz! Funk! Rock! Acid Jazz! Jazz Contemporâneo! Esse foi, mais ou menos, o percursso que o orgão seguiu dentro do universo da música norte-americana, sendo que até bandas de rock progressivo como Yes, Emserson, Lake & Palmer e Pink Floyd usariam este instrumento em suas músicas. Antes da década de 40 o modelo de orgão vigente era o pipe organ ou o orgão de fole. Na década de 40 surje o orgão Hammond, já sintetizado e eletrônico, o que permitia ao músico criar dinâmicas e efeitos só possivel nesse instrumento. Até a década 50, o orgão era um instrumento mais comum em igrejas protestantes afro-americanas ou em clubs de regiões de maioria negra onde se podia apreciar blues. No jazz, alguns pianistas, como Fats Waller, já vinham usando o orgão pra criar certas nuances e arranjos. Mas foi com Jimmy Smith que o orgão chegou, de fato, aos clubes de jazz de Nova Iorque. Jimmy Smith ficou famoso não só por ter popularizado o orgão no jazz, mas por ter trago junto consigo a pegada do gospel e soul, criando o estilo do Soul-Jazz na década de 50.
Vários organistas como Jimmy McGriffy, Jack McDuff, Richard Groove Holmes saíram de suas cidades para presenciar Jimmy Smith nos clubes mais famosos de NY, dentre eles Small's, Caffe Bohemia, Birdland, dentre outros. Neste podcast nós ouviremos, também da mesma época que Jimmy Smith, o organista Jack McDuff, que foi o cara que revelou o guitarrista George Benson. Aqui McDuff está numa gravação de 1961, Soul Summit, com os saxofonistas Gene Ammons e Sonny Stitt. O nome da faixa: Suffle Twist!
Outro organista que merece atenção e hoje é uma lenda viva é o Dr. Lonnie Smith: o cara de turbante aí da foto! Lonnie Smith foi revelado no primeiro quarteto de George Benson em 1966, e depois seguiu com uma carreira solo bem diversificada, ou seja, antenada não só com o soul e funk da época, mas também foi influenciado pela world músic e até pelo free jazz. Convertido ao islãmismo, Lonnie Smith lançaria albuns como cheio de referências espirituais e místicas, com uma sonoridade bem carregada de experimentos e muito rhithm'nblues. Até hoje, Dr. Lonnie Smith faz grande sucesso em NY e no mundo todo. Tanto que a Associação dos Jornalistas de Jazz nomeram-no na categoria "Organista do Ano" em 2003, 2004, 2005, 2008 e 2009. No programa ouvimos o funk Come Together do excelente disco Rise Up, de 2009.
Atualmente, o único organista de grande destaque como Lonnie Smith é Joey DeFrancesco, que por vários anos tem ganhado o primeiro lugar de "Organista do Ano" pela revista Downbeat. Filho do também organista "Papa" John DeFrancesco, Joey é considerado o principal organista da atualidade, o que siginifica dizer que seus discos são recheados não só de aspectos do funk e soul, mas também rock e, principalmente, o jazz de aspecto mais contemporâneo. No programa coloquei a faixa Little b's poem, do disco Organic Vibes, de 2006.
Por ultimo você ouvirá o trio Soulive, da cidade de Buffalo. Esse trio é formado por Erik Krasno na guitarra, Alam Evans na bateria e Neil Evans no orgão. Trata-se de uma banda que caminha entre os estilos do jazz-funk e acid jazz, englobando pegadas gospel, hip hop, lounge, funk-rock e afins. Eles costumam ter, além da propria atuação do trio, o acompanhamento de trompetistas, saxofonistas, tecladistas, DJ's e etc. Eles já estiveram por aqui, no Brasil, tocando no Bourbon Street, jazz club de São Paulo e foi "ducaralho"! Vocês poderão ouvir a faixa Solid, do disco Doin' Something de 2001. Ademais, deixo abaixo os players do programa e dois vídeos com o James Carter Organ Trio, com um solo do fantástico organista Gerald Gibbs.
Ouça!
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Saturday, Jan 23, 2010O saxofone: de Coltrane à Joshua Redman!
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Este programa abordará a família do saxofone, sendo este o segundo programa com foco em um instrumento: no programa anterior vos apresentei o poderoso som e fraseado do trompete nas sonzeiras de seis trompetistas; e neste programa também vos apresento seis saxofonistas e quatro tipos de saxofone (sax alto, sax tenor, sax soprano e sax barítono), fazendo um link entre passado e presente, partindo do som encorpado do sax tenor de Sonny Rollins, na década de 50, até abordar o jazz contemporâneo de Joshua Redman, já no século 21. Sabe-se que, se o trompete é um instrumento de trajetória determinante e de sonoridade aguda e poderosa, o saxofone é um instrumento muito expressivo e dinâmico: houve saxofonistas nas décadas de 40 e 50 como Charlie Parker e Sonny Stitt, por exemplo, que levavam a galera dos jazz clubs ao delírio com fraseados ágeis e intrincados, enquanto outros como Lester Young e Paul Desmond eram capazes de fazer a galera chorar pela expressividade melódica e a sonoridade "cool" e suave. Aliás muitos dos saxofonistas foram responsáveis por mudanças cruciais dentro deste gênero musical chamado jazz.
Sonny Rollins, saxtenorista nascido em 1929 e ainda na ativa, é um dos mais poderosos saxofonistas da história do jazz. Sempre conhecido pelo seu som cheio, grave e encorpado, Sonny Rollins começou sua primeira fase áurea na carreira solo em 1956, logo após sair do lendário quinteto do baterista Max Roach. A faixa que inicia o podcast é o tema "St. Thomas", que está no disco clássico Saxophone Colossus e é uma das mais conhecidas composições de Sonny Rollins. A faixa mostra o gosto de Rollins por ritmos inusitados: aí ele mostra o ritmo caribenho do calypso, mesclando-o com o swing do estilo hard bop na marcação da bateria de Max Roach, tendo também o pianista Tommy Flanagan e o contrabaixista Doug Watkins. Sonny Rollins foi e é um dos saxofonistas de fôlego e sonoridade mais poderosa da história do jazz, com certeza!
John Coltrane (1929-1967), por sua vez, é o mais cultuado saxtenorista da história do jazz. Iniciou sua carreira no estilo do bebop no final da década de 40, mas ganhou maturidade na década de 50 colaborando com gênios como o trompetista Miles Davis e o pianista Thelonious Monk. Chamado pelos amigos apenas de Trane, John Coltrane teve duas fases áureas: a primeira foi em fins dos anos 50 com os seus solos magistrais em discos de Miles Davis e Thelonious Monk (conferir nos discos Thelonious Monk with John Coltrane, Milestones e Kind of Blues, por exemplo), bem como seus primeiros lançamentos pelos selos Blue Note e Prestige (conferir os discos Dakar, Blue Train e Giant Steps, por exemplo); já a segunda fase começa a partir de 1960, quando ele embarca numa viagem mais experimental e mística, ingressando-se no estilo do free-jazz. A faixa que iremos ouvir é Giant Steps, do disco de mesmo nome que é um clássico considerado a transição de Trane do estilo hard bop suingante para o "jazz modal" (composição e improvisação baseada nas escalas musicais gregas chamadas "modos"). A partir dessa fase, seu fraseado fica mais livre e particular: reparem a improvisação contínua e ligeira do saxofonista, acompanhado pelo pianista Tommy Flanagan, pelo contrabaixista Paul Chambers e pelo baterista Art Taylor.
No segundo bloco ouve-se o sax alto de Paul Desmond, saxofonista membro do lendário quarteto do pianista Dave Bubreck. Paul Desmond é um saxofonista mais lírico, ou seja, mais melódico, ainda que às vezes ágil e habilidoso. A faixa que se ouve com Desmond neste bloco é a "Tokyo Traffic", do disco Jazz Impressions of Japan (1964), um disco resultado da viagem de Dave Brubeck com o quarteto para o Japão. A faixa, assim como o disco inteiro, tem alguns arranjos baseados nas sonoridades da música japonesa que dão um toque muito especial às composições de Brubeck. Já o Paul Desmond, parceiro inseparável do pianista é a segunda maior marca aí presente: suas improvisações são lindas, melódicas e suaves. Juntos, Paul Desmond e Dave Brubeck fizeram com que esse quarteto fosse um dos combos mais famosos e duradouros da história do jazz. (PS: combo é uma denominação dada para pequenas bandas do jazz, tais como duos, trios, quartetos, quintetos e etc).
A segunda faixa do segundo bloco é "Shut Your Mouth", do disco Momentum (2005) do saxtenorista Joshua Redman, um dos principais saxofonistas da atualidade. Joshua Redman, filho do falecido saxofonista Dewey Redman, foi um dos "young lions" surgidos no início da década de 90 ao lado de outras feras do sax tenor como Chris Potter, Eric Alexander e James Carter. Essa primeira fase dos anos 90 foi marcada por uma faceta mais revivalista, ou seja, Joshua Redman, assim como todos os músicos da geração "Young Lions", estava antenado com o grande revival aos estilos do bebop e hard bop, ou seja, às influências de Charlie Parker e John Coltrane, respectivamente: inclusive essa onda revivalista imposto por esses músicos chamados "jovens leões" foi denominada por muitos jornalistas como Neo-bop. Já este disco chamado Momentum marca a segunda fase de Joshua Redman, onde ele mostra uma postura mais eclética com influências calcadas no funk, no uso de instrumentos eletrônicos como o órgão e em formações enxutas como o trio de sax, contrabaixo e bateria. Nesta faixa, "Shut Your Mouth", ouvimos a participação do organista Sam Yahel e do fantástico baterista Brian Blade.
O terceiro bloco inicia com a faixa "Good Morning" do disco Resistance (2005), do saxofonista inglês Courtney Pine. Apesar de ter iniciado sua carreira nos anos 80 antenado com o estilo Neo-bop da galera da geração "young lion", Coutney Pine passou a usar muitos outros elementos de fora do jazz como os ritmos do reggae, soul, pop e hip hop já a partir de meados da década de 90. Com essa postura mais eclética Coutney Pine passou a ser um nome muito conhecido nos rankings da Billboard, nas pistas de dança dos clubes ingleses que tocavam house e acid jazz, bem como passou a lançar discos com participações de diversos cantores da pop e soul music. Mas Courtney Pine sempre lançou discos de sonoridades muito originais, tocando vários dos instrumentos da família dos saxofones e usando diversos arranjos e ritmos de outros gêneros musicais sem desprezar a sua base na tradição jazzística. Nesta faixa, "Good Morning", ouvimos as improvisações de Pine ao som do seu sax soprano, instrumento que foi popularizado no jazz pelo saxsopranista Steve Lacy na década de 60.
Por fim, o programa termina com James Carter recriando o tema Caravan, um dos mais conhecidos standards do jazz. Nesta faixa, James Carter mostra o som poderoso e cheio de efeito que só ele consegue tirar do sax barítono. Aliás, não é a toa que James Carter é considerado o maior baritonista das últimas décadas pela revista Downbeat. Excelente improvisador, James Carter combina o seu ágil fraseado bop com uma sonoridade grave, ríspida, potente e cheia de ruídos e rangidos. James Carter também é muito admirado pelos especialistas em jazz pela forma talentosa como toca vários instrumentos: flauta, clarinete-baixo, sax tenor, sax soprano e sax barítono. Para saber mais sobre James Carter, basta acessar este post daqui mesmo do blog Farofa Moderna, onde eu falo um pouco do estilo e trajetória desse colossal saxofonista chamado James Cater: aproveitem, pois neste post tem duas faixas fantásticas do disco J.C. on the Set de 1994, disco de onde eu tirei essa faixa Caravan que encerra este programa.
Boa Audição
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Saturday, Jan 23, 2010O trompete: de Dizzy à Dave Douglas !
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Desde o início da história do jazz o trompete - um instrumento pequeno mas muito alto e poderoso - é considerado para muitos como o principal instrumento do jazz, já que sua posição dentro das bandas e big bands era a de linha de frente, enquanto os outros instrumentos eram incumbidos apenas para acompanhá-lo. Reza a lenda que um dos primeiros músicos de jazz, o trompetista Buddy Bolden, tinha o sopro tão forte que as pessoas conseguiam ouvi-lo tocar do outro lado do Rio Mississipi, em New Orleans. Depois vieram trompetistas como King Oliver, Louis Armstrong - talvez, o mais conhecido de todos - até chegar na era Bebop na década de 40 com o buchechudo Dizzy Gillespie. Assim, mesmo tendo mais saxofonistas do que trompetistas, o trompete marcou o jazz através da figura desses grandes sopradores. Errata: no programa digo 5, mas apresentarei aqui 6 trompetistas: partindo do chamado Jazz Moderno ao Contemporâneo.
É com Dizzy Gillespie e o saxofonista Charlie Parker que começa a onda do bebop, ou seja, o Jazz Moderno. O sopro de Dizzy era forte, seu dedilhado e articulação eram ágeis e ele ainda conseguia tocar as notas mais agudas do trompete - um desafio que deixava todos os trompetistas da época frustrados e, claro, com inveja de Dizzy. Dizzy Gillespie foi um dos primeiros e maiores virtuoses da história do Jazz. A faixa que apresento neste programa é a Wheatleigh Hall, do disco Duets de 1957 (com os saxofonistas Sonny Rollins e Sonny Stitt). Dizzy foi o pai do Bebop, estilo que vamos ouvir na maioria das faixas deste programa.
Miles Davis surge no final da década de 40 como um dos pupilos de Dizzy Gillespie. Na verdade, Miles Davis foi um dos trompetistas que se frustrou por não conseguir tocar tão rápido e tão agudo quanto Dizzy. Então, Miles criou seu próprio estilo: um sopro mais inibido, sem vibrato, usando muitas vezes surdina (acessório que "abafa" o som do instrumento) e com uma improvisação "econômica", ou seja, usando poucas notas, mas as notas certas. No podcast apresento a faixa All Blues, gravada pelo seu segundo quinteto em 1964 ao vivo no Lincoln Center. Nessa fase dos anos 60, Miles chegou no seu auge, tocando cada vez melhor e deixando seu som mais "sujo", ou seja, menos suave e mais violento. Miles Davis é considerado um dos mais multifacetados músicos da história do jazz: ele foi do bebop ao pop, passando por várias fases criativas e decadentes
Depois é a vez de Woody Shaw: vamos ouvir a faixa Rahsaan's Run, do disco Rosewwod , lançado em 1976 pela gravadora Columbia e premiado em duas categorias do Prêmio Grammy em 77. Woody Shaw foi o principal trompetista da década de 70, período de crise para o jazz acústico, pois o mercado estava dominado pela disco music, pelo funk, rock, fusion, entre outros estilos mais comerciais. Mas Woody Shaw não foi só um dos principais músicos desse período chamado post-bop, como também foi um dos trompetistas mais diferentes de todos: seu fraseado, sua articulação, seu estilo de improvisar eram totalmente singulares. Woody Shaw teve uma vida inconseqüente: cheia de azares e vício das drogas.
Apesar do domínio do rock e do pop no mercado nos anos 70, o jovem Wynton Marsalis foi capaz de resgatar o jazz no seu estado mais puro, recolocando-o como sensação no mercado e renovando o seu público. Em 1981, Wynton Marsalis substituiu Woody Shw na Columbia Records e lançou o seu primeiro album, chamado apenas "Wynton Marsalis". O disco contava com a presença do seu irmão saxofonista, Branford Marsalis, mais três músicos que fizeram parte do quinteto de Miles: o pianista Herbie Hancock, o baterista Tonny Williams e o contrabaixista Ron Carter. O disco foi gravado totalmente acústico e foi o primeiro a vender mais de 100 mil cópias numa tacada só como não se via a muito tempo. Foi a partir daí que as gravadoras passaram a procurar jovens-talentos como Wynton Marsalis, iniciando a fase do Young Lions (jovens leões). Wynton Marsalis não só resgatou o jazz acústico como também resgatou os estilo do bebop e hard bop, num estilo mais moderno que rotularam de Neobop. Vamos ouvir a faixa Hesitation do disco Wynton Marsalis de 1981.
O terceiro bloco inicia-se com Roy Hargrove, trompetista que foi descoberto por Wynton Marsalis em um colégio do Texas no final dos anos 80. Já no início dos anos 90 Hargrove passou a ser uma das principais promessas do jazz norte-ameriano. Ele resgatou de forma muito moderna e "fresca" o estilo do hard bop dos anos 50 e também lançou discos de fusões, ou seja, misturando jazz com rap. Vamos ouvir a faixa Miles tone, que é uma composição de Miles Davis na versão de Roy Hargrove, que aí esta acompanhado do saxofonista Brandord Marsalis (outro músico que misturou jazz com rap na década de 90): esta faixa está no disco Vibe, lançado em 1992.
Por ultimo, vocês ouvirão o trompetista Dave Douglas com uma banda bem diferente das bandas com saxofone, baixo e piano que estão nas faixas anteriores. O nome da faixa é Vanitates Vanitatum, um tema erudito de Robert Schuman, recriado na versão de jazz contemporâno. A banda é um trio com Dave Douglas no trompete, Brad Schoeppack na guitarra e Jim Black na bateria. O nome do disco é Constellations (1995), que foi gravado pelo selo suíço Hat Hut. Dave Douglas é um músico que caracteriza bem essa faceta eclética do jazz atual, onde os músicos recriam na versão jazzística temas da música erudita, do pop, do hip hop e vários outros gêneros.
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Tuesday, Aug 25, 2009Criss Cross Records, o novo selo-sinônimo de Jazz
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A Criss Cross Records foi fundada na Holanda em 1980 pelo ex-baterista e professor Gerry Teekens. A princício seu fundador prezou por gravar apenas artistas dissidentes do bebop, hard bop e post-bop sessentista que passavam pela Holanda e também estavam esquecidos pela mídia e público após o declínio do jazz acústico na era do pop e do fusion: entre eles estavam o guitarrista Jimmy Raney, o saxtenorista Warne Marsh, o trombonista Jimmy Knepper, o trompetista Johnny Coles, o pianista Cedar Walton, o trombonista Slide Hampton, dentre outros. Depois, com o fenômeno do “Renascimento do Jazz” possibilitado pela onda da revalorização do jazz acústico – o chamado Neo-bop dos Young Lions -, Gerry Teekens passou a procurar por “sangue novo”. E essa “onda” cresceu de forma tão exponencial que Teekens não se preocupou em arriscar nos mais desconhecidos nomes e nos mais recentes instrumentistas que ele encontrava. Com um grande faro para descobrir novos talentos, Teekens fez com que alçassem ao vôo alguns dos mais renomados e algumas das principais revelações do jazz contemporâneo na década de 90 e nesses últimos anos. Tanto que ,ainda hoje, Teekens mantém a mesma tranqüilidade e avidez ao procurar por “sangue novo”, sem se preocupar com sucesso comercial: “If I hear someone I like...I record them, regardless of whether they'll sell.”- disse o produtor em entrevista à revista All About Jazz. Então, vê-se que o entusiasmo de Teekens consiste apenas no talento e na peculiaridade do músico, principalmente se for alguém que tenha gravado poucas vezes e/ou está esperando uma nova oportunidade para mostrar sua música, suas composições: "I'd rather record guys who are really eager to play, "he says" than feature big names who have recorded many times already. There's a lot of fire among the younger musicians.” Essa idéia de formar um grande portfólio de jovens músicos do jazz estadunidense deu-se início em 1984, quando Teekens passou a viajar constantemente aos EUA, chegando, inclusive a gravar no estúdio de Rudy van Gelder, o gênio da engenharia sonora por detrás das grandes gravações da Blue Note e da Impulse nos anos 50 e 60. Em 1990, Teekens encontrou um gênio à altura de Van Gelder: Max Bolleman, o grande homem responsável pela sonorização e engenharia do estúdio da Criss Cross, tem a mesma fissura pela limpidez sonora e pela nitidez dos detalhes que Van Gelder conseguia obter em suas masterizações. Desde então, diversos músicos de grandes talentos realizaram seus “debuts” pela Criss Cross: entre eles estão Kenny Garrett, Steve Wilson, Benny Green, Bill Charlap, Chris Potter, Mark Turner, Kurt Rosenwinkel, Orrin Evans, Seamus Blake, dentre outros. Portanto, não foi à toa que, inicialmente, a Criss Cross se destacou apenas por ser “selo de estréia” para muitos músicos que automaticamente se consagraram no cenário norte-americano. Ou seja, os músicos estreavam pela jovem gravadora e logo eram chamados por gravadoras maiores como a Verve e a Blue Note, consagrando-se imediatamente como novos músicos no topo da lista dos venerados: foi assim, por exemplo, com o guitarrista Kurt Rosenwinkel que, logo após sua estréia sob o comando de Teekens, foi chamado para ser um artista da Verve. Atualmente, no entanto, a gravadora – apesar de continuar na mesma linhagem de descobrir novos instrumentistas - já tem seu próprio portfólio de músicos residentes e já se destaca não só por ser, desde sempre, um selo totalmente dedicado ao jazz, mas também por ter estabelecido um grau de excelência comparado ao das grandes gravadoras de jazz dos anos 50 e 60 tais como a Blue Note, Prestige e Riverside. Pode-se ver que a gravadora, cada vez mais, tem ampliado seu cast com instrumentistas fantásticos, lançando uma média de 15 a 20 álbuns por ano. O baterista Herlin Riley, o trombonista Wycliffe Gordon, os saxtenoristas Seamus Blake e Walt Weiskopf, os trompetistas John Swana, Ryan Kisor e Alex Sipiagan e os pianistas David Kikoski e Orrin Evans são alguns desses músicos fantásticos que já estão estabelecidos - alguns já alguns anos - como “pratas-da-casa”.
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Saturday, Jul 11, 2009O elegante som da Maria Schneider Orchestra
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A saga de Maria Schneider teve início em meados da década de 80, quando ela passa a estudar composição com o trombonista Bob Brookmeyer e passa a ser auxiliar de Gil Evans, chegando a colaborar com este na trilha do filme A Cor do Dinheiro e na turnê Gil Evans/ Sting em 1987, na Europa. Sua carreira solo, porém, inicia em 1993 quando ela forma sua própria orquestra e começa a se apresentar todas as Segundas-Feiras no grande clube Visiones em Greenwich Village, Nova Iorque. Ao gravar seus primeiros discos, Evanescense e Coming About, o sucesso de público e crítica foi imediato. Seus discos posteriores lhe renderam elogios e premiações nos maiores holofotes americanos: indicações a premios Grammy's, nomeações nas revistas Jazz Times e Downbeat, nas listas anuais da Associação dos Jornalistas de Jazz (Jazz Journalist Award) e na revista Time e nos rankings da Billboard. No podcast eu abordo faixas de apenas três discos de Maria Schneider: Coming About (1996), Days of Waine and Roses (gravado ao vivo no clube Jazz Standard em 2000) e, por fim, mostro uma faixa do Sky Blue (2007), o ultimo disco que Schneider lançou e que, mais uma vez, lhe rendeu duas nomeações na Jazz Journalist Wards: The Best Composer e The Best Arranjer, em 2008.
No podcast também abordo o fato de que na década de 90, Maria Schneider, talvez, tenha ficado na sombra do bandleader e compositor Wynton Marsalis, haja vista suas poderosas suítes e oratórios que acabou lhe rendendo prêmios e títulos como "Um dos maiores compositores norte-americanos de todos os tempos" - vide o prêmio Pullitzer dado à obra Blood on the Fields em 1997. Mas na década de 2000, Maria Schneider foi, realmente, a maior arranjadora e chefe de orquestra, quebrando aí alguns tabus que as mulheres geralmente tem de enfrentar quando querem ser estrelas do jazz frente aos homens marmanjos e virtuoses. Ora, se falta à Maria Schneider a esquematização e imaginação da escrita genial de Wynton Masalis, a arranjadora, por sua vez, conseguiu mostrar obras de grande lirismo e inventividade e até mesmo vigor em alguns arranjos, já que ela conseguiu juntar alguns dos maiores solistas de Nova Iorque: entre eles eu destaco o virtuoso trompetista Tim Hagans, o saxofonista Donny McCaslin, o acordeonista Gary Versace, a trompetista Ingrid Jensen, a vocalista brasileira Luciana Souza, o baterista Clarence Penn, dentre muitos outros bons instrumetistas. A lembrar também estão os detalhes da sonorização, harmonização e atmosfera que Maria Schneider imprime em suas peças melodiosas: em seus discos há, por exemplo, faixas de grande swing e pegada bop (como no arranjo sobre o tema Giant Steps de Coltrane), mas estas contrastam com outras faixas que evidenciam uma orquestração mais melodiosa, tênue e lírica (como em Aires de Lando - do disco Sky Blue -, faixa suvamente dotada de um lirismo latino): muitas vezes essas faixas soam quase como um cantábile em adágio, com uma dinâmica musical que vai do pianíssimo ao fortíssimo, imprimindo, no percurso, várias nuances interessantes. Contudo, a música de Schneider não soa melosa ao extremo, mas soa contemporânea e agradável - além do que, também há partes onde ela evidencia uma orquestração mais "suja", "psicodélica" e "experimental": como na primeira faixa da "suite" Scenes From Childhood intitulada Bombshelter Beast, presente no excelente disco Coming About.
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Thursday, Jul 02, 2009Grandes Pianistas do Jazz Contemporâneo
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Na sua edição do mês de Julho do ano de 2008, a revista americana Down Beat - considerada a "Bíblia do Jazz" - escolheu três novos figurões para ilustrar sua capa: os pianistas Jason Moran, Matthew Shipp e Vijay Iyer. Essa escolha de mostrar não apenas um, mas três dos mais novos e principais pianistas do jazz atual numa mesma capa, reflete o atual cenário pianístico, rico em pianistas de indentidades próprias e projetos inovadores - ou seja, qualquer um desses pianistas teriam - e tem - envergadura para figurar sozinho numa capa da DB, pois trata-se das principais estrelas do instrumento da nova geração, mas a revista mostrou que, dessa vez, soube reconhecer que o universo do piano não é dominado apenas por um maioral ou por um músico com influência monopolista, mas por vários talentosos pianistas com ascendências diversas: então, daí a escolha de Moran, Shipp e Iyer, três dos principais e mais distintos inovadores do piano e do jazz contemporâneo.
Esse podcast tem a função de apresentar as características e os estilos desses pianistas. O pianista Jason Moran ( inicialmente, pupilo de Muhal Richard Abrams e de Andrew Hill e, atualmente, sideman da banda de Charles Lloyd) foi um dos músicos que resgatou o Free Jazz a partir do início da década de 2000, e é um pianista completo por trabalhar em várias linhas de frente de maneira particular e contemporânea: Moran transita livremente do jazz tradicional ao free jazz, da improvisação à música erudita. Já Matthew Shipp também é um pianista com influencias do Free Jazz (tendo, inclusive, iniciado sua carreira com músicos como Roscoe Mitchell, David S. Ware e William Parker), mas atualmente tem trabalhado num estilo próprio que une o mainstream, o avant-garde, elementos da música eletrônica e o hip hop. Vijay Iyer, por sua vez, é influenciado pelo Free Jazz e M-Base (estética criada pelo saxofonista Steve Coleman) e, por vezes, baseia-se na concepção harmônica de Thelonious Monk e nos estilos introspectivos de improvisação lançados por pianistas como Sun Ra e Andrew Hill. Além desses pianistas citados, este programa mostra outros pianistas menos reconhecidos pelo público como o grande pianista Geoffrey Keezer - um dos sidemans mais requisitados, um grande musicians' musician do jazz americano -, os iniciantes Aaron Parks e Robert Glasper (ambos pianistas descoberto pela Blue Note) e alguns pianistas de outras nacionalidades: da Argentina ouve-se Ernesto Jodos (com seu trio composto do contrabaixista Nelson Arriagada e do baterista Félix Lecaros), da Suécia ouve-se o falecido Esbjorn Svensson (com seu trio composto do contrabaixista Dan Berglund e do baterista Magnus Öström), e do Japão ouve-se a pianista vanguardista Satoko Fujii (em parceria com o baterista Yoshida Tatsuya).
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Thursday, Jul 02, 2009As várias facetas da música do clarinetista Don Byron
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Qual músico de jazz é capaz de criar uma discografia talhada com influências tão díspares como jazz tradicional (ragtime, swing), jazz moderno (neo-bop e post-bop), funk, rap, spoken word, klezmer music (música judaica), ópera, ária e lieders eruditos, música caribenha e afro-latina, M-Base e free jazz? Resposta: Don Byron, um compositor e clarinetista dos mais criativos músicos de jazz dos ultimos anos.
Don Byron é um músico que se encaixa perfeitamente na vertente atual denominada Modern Creative, que é nada mais do que uma denominação usada para caracterizar os músicos do jazz contemporâneo que usam de influências diversas em suas colagens sonoras: colagens que vão desde o swing jazz, passando pela influência moderna do bop - entendido atualmente como neo-bop e post-bop -, usando a cacofonia do avant-garde, botando um requinte erudito, apimentando com influências latinas e por aí vai, num infinito de misturas e possibilidades. Essa geração denominada Modern Creative, que passou a evidenciar-se na passagem do século 20 para o século 21, é constituída de músicos que costumam ser gandes parceiros de Byron, tais como: Dave Douglas, Uri Caine, Graham Haynes, Bill Frisell, entre outros músicos do cenário nova-iorquino denominado como Downtown.
As duas primeiras faixas do primeiro bloco, Mamaliege Dance e Litvak Square Dance, são do repertório de Mickey Katz, um enterteiner e clarinetista judeu dos tempos do swing jazz, o qual Don Byron homenageou no disco Don Byron Plays The Music of Mickey Katz. A faixa seguinte, Glitter and Be gay, é uma ária ou um lieder (um tipo de canção operística e erudita muito comum na música de câmera alemã - vide os famosos lieders do compositor Franz Schubert): esta faixa está no disco A Fine Line (Árias and Lieders).
O segundo bloco é constituído de duas faixas: Goetz, James Ramseur, Me do disco Romance with the Unseen e Tuskegee Experiment do disco homônimo, o primeiro disco de Byron. Ambas tem características do neo-bop e post-bop, sendo a segunda mais levada pro lado do free-funky e impregnada com o spoken vocals do poeta e rapper Sadiq, um dos grandes colaboradores de Byron. Lembrando, também, que essas faixas mostram atuações fantásticas dos sidemans: Em Goetz, James Ramseur, Me ouvimos a atuação fantástica do guitarrista Bill Frisell e do baterista Jack DeJohnette; já em Tuskegee temos a atuação fantástica do baterista Ralph Paterson, além da voz de Sadiq.
O ultimo e terceiro bloco, o mais comprido, mostra a influência dos beats caribenhos e afro-latinos contida no disco Music for Six Musicians e, também, as influências do funk, hip hop e M-base (estilo de jazz criado pelo saxofonista Steve Coleman) contidas no disco Nu Blaxploitation. As faixas que constituem esse bloco são The press Made e I'll Chill on the Marley Tapes (amas do disco Music for Six Musicians), além de uma faixa do disco Ivey-Divey chamada Leopold, Leopold (que eu errôneamente anunciei como sendo do disco Nu Blaxploitation) e, por fim, a faixa Alien do fantástico Nu Blaxploitation. Ademais, eu encerro o podcast usando uma faixa bem conhecida de todos os amantes de jazz: do disco Bug Music eu uso a faixa St Louis Blues, famoso tema do jazz tradicional - lembrando que esse disco, Bug Music, é um disco onde Byron se dedica apenas à recriar standards e temas do repertório do New Orleans Jazz e Swing.
OBS: No Blog Farofa Moderna há um bootleg de um show de Don Byron com seu Sexteto em Quasimodo, Alemanha. ( esse sexteto tem a mesma configuração usada no fantástico disco Music for Six Musicians, sendo quase todos os integrantes o mesmo que atuaram na gravação do respectivo disco). Acesse o link acima e baixem!
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Sunday, Jun 28, 2009A suite In this House, on this Morning, de Wynton Marsalis
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Wynton Marsalis vem seguindo a mesma trilha dos mestres Duke Ellington e Charles Mingus enquanto compositor, músico e chefe de orquestra. No quesito compositor, Wynton Marsalis tem provado que é não só um dos mais criativos, mas um dos mais importantes compositores da música norte-americana atual - senão o maior e mais importante compositor da sua geração, haja vista seu tino criativo que vem lhe permitindo - anos após anos - criar obras grandiosas como a suite In this House, on this Morning (1992) composta para septeto e o oratório Blood on the Fields (1994), obra para big band e vozes que ganhou o prêmio Pullitzer em 1997, após uma revisão que lhe deu o formato efetivo e uma calorosa reestréia nos palcos do Lincoln Center, em Nova Iorque. O que assusta em Wynton Marsalis, portanto, é sua capacidade de criar obras em diversos contextos e temáticas, sem lançar uma única peça que seja semelhante à outra subsequente: ou seja, há uma grande preocupação de expressar sua indentidade original através de novos arranjos e novas sonoridades a cada peça que ele compõe. A sua escrita e seus arranjos são tão inteligentes que chegam a confundir o ouvinte no sentido de não deixar claro qual parte é composta e qual parte é improvisada.
Em 1992, Wynton Marsalis, recém-empossado como diretor artístico do Jazz at Lincoln Center (que ele ajudou a fundar em 1987), teve a honra de ser o primeiro trompetista e jazzista a ter uma obra comissionada pelo Lincoln Center. A obra que ganhou a comissão: In this House, on this Morning, uma suíte de duas horas de duração totalmente inspirada no gospel das igrejas afro-americanas. A obra teve sua estréia no grande palco do Avery Fisher Hall - mesmo palco onde o maestro Gunther Schuller estreara a inacabada suíte Epitaph de Charles Mingus em 1989 - e foi um sucesso de público e crítica, chegando a causar grande emoção na platéia. Tal como Duke Ellington compôs a suíte Black, Brown on the Beige e John Coltrane compôs a sua A Love Supreme, Wynton Marsalis compôs uma suíte jazzística que evidencia ou seu sentimento para com Deus e o Evangelho. Muito mais do que apenas dedicar essa composição ao Senhor, o compositor imprimiu suas impressões relacionadas à tradição protestante na música norte-americana através de verdadeiras referências sonoras dos cultos gospel, com partes escritas e improvisadas que fazem perfeitas alusões aos hinos e louvores, às orações, aos sermões dos reverendos, aos sinos das igrejas, às entidades divinas do Pai, Filho e Espírito Santo e até à recepção da irmandade depois do serviço. Quem é protestante ou já assistiu filmes norte-americanos em que muitas das cenas se passam em igrejas Batistas e Metodistas de New Orleans ou Georgia, saberia detectar com facilidade os elementos do gospel presentes nesta peça. E, também, os próprios títulos das faixas já dizem quais aspectos o compositor quis expressar.
Diz Wynton Marsalis em seu site que, embora ele não tenha passado sua infância e adolescência em igrejas, a sua vontade e inspiração para compor essa peça surgiu dentro dos seu próprio septeto, já que a maioria dos seus sidemans foram criados sob as doutrinas do evangelho. Tanto que nas regulares viagens e turnês da banda, os músicos de septeto sempre entoavam e tocavam as canções do repertório gospel durante os ensaios ou durante os tragetos de ônibus. Então, percebendo a estreita relação dos spirituals com o jazz, Wynton passou a incluir o gospel dentro da sua recente obsessão tradicionalista, da mesma forma que incluíra o blues e os rítmos de New Orleans a partir de 1987. O resultado do estudo ao gospel, foi essa suíte intitulada In this House, on this Morning, onde Wynton procurou fazer uma transição entre a harmonia básica do blues e do gospel e a harmonia moderna do jazz contemporâneo, fazendo alusão à toda a espiritualidade que as melodias do blues e do gospel expressam em suas abordagens sem, contudo, soar apenas básico - ao contrário, ele compôs um verdadeiro tratado contemporâneo baseado na música sacra. Além dos contrastes criados entre os "acordes perfeitos" do blues e do gospel com leves dissonâncias e os modos da harmonia moderna, Wynton também foca seu discurso no rítmo, usando beats característicos do Crescent City, New Orleans - rítmos em 6/8 e 7/4 bem próximo aos aspectos das habaneras, ragtime, strides e do second line - e, por fim, nos arranjos sutis com palmas, surdinas, vozes, pandeiro e solos com efeitos rangidos. Após ter se tornado um sucesso de público e critica, a suíte In this House, on This Morning vem sendo executada pelo Wynton Marsalis Septet no mundo todo até os dias de hoje. Com vocês eu deixo uma seleção de dez faixas em pouco mais de 60 minutos de melodias espirituais e arranjos fantásticos! A genial personalidade musical impressa nesta suíte - que não chega a ser uma peça das mais complexas de Wynton Marsalis - já prenunciava, em 1992, ser o motivo principal que levaria o trompetista e compositor a ser o primeiro negro e jazzista e ganhar o prêmio Pulitzer em 1997.
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